Sobre o processo de cura das nossas deusas

Tenho um rabisco de intenção do início de 2018: “fazer um círculo do sagrado feminino para ver se o trabalho com arquétipos das deusas ajuda mulheres”… Doze meses depois, em dezembro de 2018 tivemos o nosso ultimo circulo do ano, com integrantes assíduas relatando as transformações emocionais que tiveram em nossos encontros. Cada deusa (como nos chamamos carinhosamente) descreveu o arquétipo da deusa mitológica que foi mais especial para si, as características femininas que as fizeram refletir e obter mudanças em suas vidas, e como os encontros têm as fortalecido em energia, conhecimento e intuição.

As partilhas deixaram claro para mim o quanto nossos encontros para partilhar nossas emoções, praticar rituais e dançar têm nos conectado e fortalecido nossa espiritualidade e energia feminina, e despertado nossa deusa interior. Em meio a tantos relatos sensíveis do nosso grupo, escolhi um em especial para deixar registrado aqui o encerramento do nosso ano de 2018, com a certeza de que virão muitos outros, com o ingresso mais e mais mulheres.

Com autorização para compartilhar seu texto, a deusa Silvia descreve de forma profunda e objetiva a relação que teve com as deusas e práticas abordadas nos nossos encontros do sagrado feminino. Manifesta a evolução emocional que teve, e hoje contribui muito em nossos encontros com suas sabias palavras, doando, recebendo e ajudando outras mulheres.

Relato de Silvia, integrante do círculo deusas, dezembro 2018:

“Suzi, quando entrei no Stúdio pela primeira vez, senti que aquele lugar tinha uma energia muito boa e me identifiquei imediatamente. Quando a conheci, logo percebi que você é uma pessoa muito especial. Não sabia muito bem porque, mas tinha certeza que havia algo além de ser uma boa professora e bailarina. Hoje, nós sabemos que tem um dom. Então, não fuja dele, assuma e integre seu poder. Segue um relato sobre minha participação no círculo. Primeiro, escrevi o que mais me marcou em cada deusa e no final um resumo da evolução do meu processo durante a participação no grupo. É um lindo trabalho Suzi! Gratidão por fazer parte dele.

O sagrado feminino e o círculo das deusas:

Expectativas:
Quando soube do círculo de mulheres, fiquei muito interessada. Não tinha nenhum conhecimento do que é o sagrado feminino. Imaginei que seria uma “reunião” de mulheres interessadas em sua evolução pessoal e resgate do poder feminino.

Eurínome:
Foi no dia de Eurínome, a deusa do êxtase, que aconteceu minha iniciação no círculo de mulheres. Recordo-me que estava muito mal, pela dificuldade de aceitação do processo da menopausa precoce que eu estava vivenciando. Era um sentimento que me deixava aborrecida, triste, sem energia. Numa sociedade em que só o jovem e o belo são valorizados, me senti envelhecendo e sem valor. Por estar vivendo esse drama me desconectei das coisas boas e me deixei preencher por esse sentimento que me trazia muita negatividade. Sentia-me impotente diante de da vida. E então, Eurínome veio para me fazer uma pergunta: “Como proporcionar a si mesma um êxtase profundamente fortalecedor e alegre?” No início não sabia o que pensar, mas logo me dei conta que a resposta certa para mim seria gratidão! Sim, em vez de viver a negação eu deveria exercitar a gratidão. E no meu primeiro dia no círculo, eu vi com clareza que a gratidão seria o caminho para se chegar ao êxtase, e que deveria exercitá-la muito. Percebi que os círculos me fariam evoluir.

A deusa Hécate, o ritual e o início de um processo de cura:
Ela significa a encruzilhada, as escolhas. Lembro-me que refleti muito sobre as escolhas que tenho feito. Como elas afetam minha vida e como tenho agido em relação a elas. Refleti muito sobre meu relacionamento. Eu o escolhi? Sim! Mas estou agindo como se eu o desejasse ou como se eu estivesse desistindo dele? Em relação às outras áreas da vida? Filhos? Profissão? E a menopausa? Estou enfrentado, sendo corajosa? Ou estou desesperada como se isso fosse algo sem solução? Fiz muitas reflexões e através delas, tomei consciência do processo que estava vivendo e então, pude partilhar minhas aflições com as outras deusas do círculo. Contei também que estava tentando exercitar a gratidão, pois desta maneira, seria mais fácil aceitar essa nova fase e lidar com todos os transtornos. Percebi que partilhar com outras mulheres assuntos que são vivenciados apenas por mulheres, me fez muito bem. A deusa Hécate fez muitas integrantes do grupo pensar em suas escolhas e, nesse processo, muitas contataram com suas sombras. Muitas deusas contaram suas histórias, algumas partilharam acontecimentos marcantes de uma forma muito profunda. Neste dia, chorei muito, me emocionei e senti toda dor e angústia delas como se fossem minhas. Era como se eu tivesse vivido todas aquelas histórias… E foi algo muito forte! Essa conexão com o sofrimento e a dor de outras mulheres foi uma porta de acesso ao meu inconsciente. Revisitei um drama vivido há quase trinta anos. E, ao dividir isso com outras deusas, me senti mais livre. Foi uma experiência libertadora. Ainda na vibração de Hécate, fizemos um ritual cujo objetivo era queimar tudo o que não queremos mais em nossas vidas. Fizemos uma lista e a queimamos em um caldeirãozinho. Estranhamente, me senti muito melhor. O fogo realmente queimou mágoas, decepções, tristezas, sentimentos ruins, a respeito de mim mesma e dos relacionamentos. O contato com Hécate, com a sombra, e o ritual foram de extrema importância pra mim e eu os considero o início de um processo de cura. Me senti muito bem, me senti livre e privilegiada por fazer parte desse círculo maravilhoso e ter um lugar seguro para partilhar qualquer coisa. Gostaria muito que outras mulheres também pudessem ter essa oportunidade.

Lakshimi:
Eu estava consciente do poder da gratidão e do quanto ela é importante, como atitude positiva e curativa. Por isso, tentava exercitar a gratidão. E eis que surge Lakshimi pra me lembrar de tudo isso. Que minha vida é cheia de bênçãos! Para me lembrar de todos os motivos para celebrar e agradecer a abundância, fartura e prosperidade da minha da vida! Sim, eu tinha muuuuuuuuuuitos motivos para celebrar.

A Ausência:
O círculo de mulheres me fazia muito bem. Era um momento para cuidar de mim, elevar minha espiritualidade, partilhar alegrias, tristezas, angústias e conquistas com outras mulheres, que também sentem e vivem os mesmos dramas. Não poder comparecer ao círculo de mulheres me fazia muita falta. Sentia falta da energia do grupo e de estar com outras mulheres. Depois, ao ler livro “Mulheres que correm com Lobos”, compreendi que esse sentimento é muito saudável, e que faz parte da mulher selvagem.

Oxum:
Não sabia nada sobre a mitologia de Oxum, mas quando soube, fiquei encantada. Fiquei imensamente feliz em saber que iríamos trabalhar os atributos dela. Isto me fez recordar dos motivos pelos quais iniciei meu contato com a dança do ventre. Eu não sonhava em ser uma bailarina reconhecida, em fazer shows ou ter os mais lindos figurinos. Meu objetivo era o resgate do feminino, da sensualidade, a aceitação da mulher que sou. Na vibração da deusa Oxum, fizemos partilhas, rituais, mantras. Foi tudo muito prazeroso e me vem à lembrança o cheiro do jasmim. Depois do contato com Oxum, me veio muito forte a vontade de voltar a dançar, de me tornar mais bela, e ao mesmo tempo, me senti uma mulher mais segura.

O último encontro das deusas (de 2018):
Eu quis muito estar no último encontro, e o universo conspirou para que isso acontecesse. Estava iniciando uma nova fase na minha vida e partilhei isso com as outras deusas do círculo. Fiquei feliz em ver em outros rostos a felicidade que eu também estava sentindo. Com as partilhas das deusas, percebi que todas nós, aos poucos estamos evoluindo e aprendendo umas com as outras. Foi um encontro leve, prazeroso de acolhimento às novas deusas e também de aprendizado. Me senti muito plena neste dia.

Quando me integrei ao círculo de mulheres, estava com problemas físicos e psicológicos, decorrentes da menopausa precoce. Também estava muito desanimada, por causa de um tratamento sem sucesso de aproximadamente 02 anos, para curar uma tendinite bilateral no quadril que me impede de fazer aulas de dança. Além disso, precisava tomar uma decisão em relação ao trabalho, e esta, apesar de parecer fácil, é muito delicada, pois envolve a dependência financeira e o relacionamento com meu parceiro. Acredito que a participação no círculo me ajudou enxergar tudo com mais clareza. Consegui administrar melhor o drama que estava vivendo, deixar ir embora o que já não me fazia bem e ter atitudes positivas diante da vida e dos problemas. Consegui sair do estágio da negação para o da gratidão. Aprendi a importância de valorizar tudo o que tenho, e também de agradecer ao universo por ter uma vida tão farta.E, por fim, acredito que fiz boas escolhas, me afastando um pouco do trabalho em prol do meu relacionamento, também decidi voltar a fazer aulas de dança e a me dedicar um pouco mais às artes. Agora, me sinto mais fortalecida e plena. A participação no círculo me faz muito bem. Além do efeito terapêutico que tem tido para mim, me aproxima mais do meu feminino, da minha sensibilidade e da minha intuição. E tem despertado a minha curandeira, dançarina e artista criativa interior.”

Gratidão Silvia querida, pela sua abertura em partilhar isso tudo conosco. Que seja apenas o início de uma grande jornada.  Com amor, Suzi.

Viemos rodopiando do vazio cósmico como estrelas espalhadas no céu, que, ao se encontrar, forma um círculo e nele se unem e dançam. Rumi, poeta persa do século XIII (sufismo)